Parábolas de Jesus: o credor impiedoso

Sem perdão não pode haver religião. O perdão é fundamental no cristianismo. O espírito do perdão é uma extensão da graça de Deus. Há uma força no perdão que nos torna livres em Deus (Mt 6:9 13). É um ato de obediência a Deus. Muitas pessoas estão doentes porque não conseguem perdoar seus ofensores. Muitas outras estão doentes porque não conseguem perdoar a si mesmas.

Mateus 18:21: “Então, Pedro, aproximando-se, Lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?”

Mateus 18:22: “Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.”

Jesus ensinou que não há limites para o perdão. Essa idéia era totalmente contrária aos costumes daquele tempo. Os rabinos limitavam o exercício do perdão até três ofensas. Pedro, como seguidor de Cristo, ampliou o limite do perdão até sete, o número que indica a perfeição. Cristo, porém, ensinou: Não “até sete, mas até setenta vezes sete”. Mostrou, então, o verdadeiro motivo pelo qual o perdão deve ser concedido e o perigo de acariciar espírito irreconciliável.

Jesus contou, então, a história de como um rei procedeu com os oficiais que administravam os negócios de seu domínio. Alguns desses oficiais recebiam grandes somas de dinheiro pertencentes ao Estado. E quando o rei investigava a administração desse depósito, foi-lhe apresentado um homem cuja conta mostrava uma dívida para com seu senhor, da imensa soma de dez mil talentos. O homem não tinha como pagar essa dívida e, segundo o costume, o rei ordenou que fosse vendido com tudo quanto tinha, para quitar o débito.

Mateus 18:23: “Por isso, o reino dos céus é semelhante a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos.”

Mateus 18:24: “E, passando a fazê-lo, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.”

Mateus 18:25: “Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga.”

Mateus 18:26: “Então, o servo, prostrando-se reverente, rogou: Sê paciente comigo, e tudo te pagarei.”

Quando o devedor pediu misericórdia, não tinha verdadeiro conhecimento da dimensão de sua dívida. Não reconheceu seu estado irremediável. Tinha esperança de livrar-se a si mesmo. “Sê generoso para comigo”, disse ele, “e tudo te pagarei.” Assim há muitos que esperam por suas próprias obras merecer a graça de Deus. Não reconhecem que a dívida para com Ele é impagável.

Mateus 18:27: “E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida.”

Mateus 18:28: “Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários; e, agarrando-o, o sufocava, dizendo: Paga-me o que me deves.”

Mateus 18:29: “Então, o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe implorava: Sê paciente comigo, e te pagarei.”

Mateus 18:30: “Ele, entretanto, não quis; antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida.”

Mateus 18:31: “Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristeceram-se muito e foram relatar ao seu senhor tudo que acontecera.”

Mateus 18:32: “Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste;”

Mateus 18:33: “não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?”

Mateus 18:34: “E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida.”

Mateus 18:35: “Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.”

Lições:

a) O perdão dado pelo rei representa o perdão divino de todo pecado. Assim é com o débito do pecado; jamais conseguiremos pagá lo. Mas quando nos arrependemos sinceramente, Deus nos livra dessa dívida;

b) O dever de manifestarmos compaixão por aqueles que nos ofendem, assim como Deus tem compaixão de nós; o mínimo que devemos fazer é estender a mesma clemência ao próximo.

c) A parábola enfatiza a urgência e o dever de perdoar e as terríveis e sérias conseqüências de deixar de cumpri-lo. Mateus 6:15: “Se não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial não vos perdoará as vossas ofensas.”

d) Quão ofensivo é não perdoar. A reação do rei foi chocante, especialmente se comparada com sua grande compaixão, antes manifestada para com a mesma pessoa. Mas é exatamente essa reação explosiva que nos mostra quão ofensivo é não perdoar nosso próximo.

e) O perdão deve vir do íntimo. Assim, fica evidente que não é uma questão de quantas vezes se deve perdoar alguém, mas de como. Se dissermos que perdoamos alguém, mas continuamos demonstrando ressentimento, será que perdoamos mesmo?

f) O contraste entre a compaixão de Deus e a dureza de coração do homem.

Os ensinos dessa parábola não devem ser mal-aplicados. O perdão de Deus não exclui, de modo algum, o nosso dever de obediência. Assim como o perdão concedido ao próximo não apaga a dívida. Não se deve fazer pouco caso do pecado. Deus nos ordenou que não contemporizássemos com a injustiça: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o” (Lc 17:3). O pecado deve ser chamado pelo verdadeiro nome e deve ser claramente exposto ao ofensor.

Perdão é a restauração do nosso relacionamento com Deus. O perdão tem duas dimensões:

a) Vertical – entre nós e Deus (significa que o pecado foi pago e removido)
b) Horizontal – entre nós e o próximo (nosso perdão foi concedido a outro)

Por quais motivos devemos perdoar?

- Para sermos perdoados por Deus (Mt 6:12-15).
- Por que fomos perdoados por Deus. Somos especialistas em ofender e em ficar magoados, mas aprendizes na arte de perdoar.
- Porque cristão irreconciliável é tão contraditório quanto ateu cristão.
- Porque o perdão de Deus não é meramente um ato judicial pelo qual Ele nos livra da condenação, mas é também um poder sobrenatural de transformação do coração.
- Porque a negativa de perdão tem conseqüências eternas na vida espiritual do cristão.

O perdão algumas vezes pode parecer injusto, pois:

- É como se considerássemos que a pessoa não fez o que fez.
- É como se estivéssemos eliminando a responsabilidade do ofensor.
- É como não considerar ofensiva a ofensa.

Perdão não é justiça. É graça! Devemos perdoar mesmo que a ofensa não possa mais ser corrigida pelo ofensor. Deus continuará existindo, independentemente do meu perdão. Mas, quando perdôo meu ofensor, mostro que Ele existe em minha vida. Perdão é um favor imerecido. Diferença entre caridade e misericórdia: (a) caridade é o bem que se faz a quem necessita e merece; (b) misericórdia é o bem que se faz a quem necessita, mas não merece.

A pergunta é: Jesus usou de caridade ou misericórdia conosco? E nós? Ao nos perdoar, Deus esquece para sempre a ofensa e a lança nas profundezas do mar.

Miquéias 7:19: “Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniqüidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar.”

Isaías 43:25: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de Mim e dos teus pecados não Me lembro.”

O pedido de perdão, no entanto, deve se caracterizar pela sinceridade e não pela intenção de tirar vantagem da graça de Deus. Quando Deus perdoa, Ele o faz completamente; sem reservas.

A quem devemos perdoar?

Mateus 5:44: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”

Qual é a advertência que Cristo nos faz?

Mateus 7:1, 2: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.”

Quando obtemos o perdão de Deus?

Arrependimento (At 3:19): “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados.”

Confissão (1Jo 1:9): “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.”

Conversão (Ez 36:27): “Porei dentro de vós o Meu Espírito e farei que andeis nos Meus estatutos, guardeis os Meus juízos e os observeis.”

Perdão imediato (2Sm 12:13): “Então, disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. Disse Natã a Davi: Também o Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás.”

Deus odeia o pecado. Da mesma maneira, Ele quer que o odiemos e abandonemos, porque invariavelmente o pecado nos põe em dificuldade, causa tristeza de coração e, por fim, produz a morte. Uma vez cometido o pecado, como no caso de Davi, logo que tenha sido reconhecido e confessado com sinceridade, nesse mesmo momento ele é perdoado. Davi disse: “Pequei.” A resposta imediata foi: “Também o Senhor te perdoou o teu pecado.”

Perdão é libertação! “Assinada em lágrimas, selada com sangue, escrita em pergaminho celestial, registrada nos arquivos eternos. A tinta negra da acusação foi totalmente coberta pela tinta vermelha da cruz: O sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado” (T. De Witt Talmage).

(Texto da jornalista Graciela Érika Rodrigues, inspirado na palestra do advogado Mauro Braga.)

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